24.5.13
todas as coisas
entre uma ladeira e outra, vou me tornando aquilo que sou sem a poeira. hoje dei um tapa na cara do tempo duro e concreto, o suposto tempo, e prometi pra mim que cuidaria da horta. "vai, tempo, e não me arrasta", eu disse pra ele. e então me dei conta de algo tão sério: que o quanto eu cuido das plantas é exatamente o quanto estou cuidando-de-mim-no-tempo. cuidando de florescer, de existir-com. de não deixar a alma com fome.
e como eu amo regar as plantas, tirar as folhas secas, cheirar a terra, ver se precisa mais água. o manjericão que estava dando flor e que quase morreu esta semana: fiquei triste, triste, como se ele fosse eu, como se eu fosse ele. a inocência do que ele é: pegando o lixo alheio e secando por dentro. e ele estava florindo. o mal precisa encontrar um meio de partir. tomou pra si e quase morreu. e eu amo esse manjericão. vou cuidar dele até enquanto houver vida pra ser cuidada. outra vida nele.
e tudo que eu cuido cuidando de mim sem eu saber. tudo e cada coisa, que tudo é frágil e forte, quente, escuro, calmo e espantado como eu.
entre uma ladeira e outra, vou me tornando aquilo que sou sem a poeira. hoje dei um tapa na cara do tempo duro e concreto, o suposto tempo, e prometi pra mim que cuidaria da horta. "vai, tempo, e não me arrasta", eu disse pra ele. e então me dei conta de algo tão sério: que o quanto eu cuido das plantas é exatamente o quanto estou cuidando-de-mim-no-tempo. cuidando de florescer, de existir-com. de não deixar a alma com fome.
e como eu amo regar as plantas, tirar as folhas secas, cheirar a terra, ver se precisa mais água. o manjericão que estava dando flor e que quase morreu esta semana: fiquei triste, triste, como se ele fosse eu, como se eu fosse ele. a inocência do que ele é: pegando o lixo alheio e secando por dentro. e ele estava florindo. o mal precisa encontrar um meio de partir. tomou pra si e quase morreu. e eu amo esse manjericão. vou cuidar dele até enquanto houver vida pra ser cuidada. outra vida nele.
e tudo que eu cuido cuidando de mim sem eu saber. tudo e cada coisa, que tudo é frágil e forte, quente, escuro, calmo e espantado como eu.
20.5.13
eu: precisando inventar palavra. que, se a gente para e repara, as palavras são cheias de paredes. fazendo caber nem sempre o que a gente queria dizer. hoje, por exemplo, ontem por exemplo. a lua e o sol ao mesmo tempo. um céu inteiro de azul. aquela que eu sou e tudo que me escapa. e por quê? não tenho palavra. então é quentura, é gastura, é fundura, é ser-com. Inventar palavra como quem busca um nome para uma coisa que nasce e que ninguém ainda soube dizer.
12.5.13
6.5.13
segunda-feira. e as horas bonitas que vêm sem avisar. o meu vestido ao vento. deixando o cansaço físico levar embora. que eu amo ir com o corpo. estar aonde ele vai. amo ser a alma que ele carrega. vulgar mesmo é não existir.
26.4.13
vagaluminho
hoje foi noite de vaga-lume. fomos até o escuro da beira do rio e então eu vi tão de perto: um vagaluminho passando por cima da minha cabeça. uma benção da noite, do rio, do lugar. que a vida nos dá pequenas grandes luzes e a gente nem percebe, nem olha. esse vagaluminho me quis. ele quis que eu o visse. ele existiu pra mim e me fez importante.
hoje foi noite de vaga-lume. fomos até o escuro da beira do rio e então eu vi tão de perto: um vagaluminho passando por cima da minha cabeça. uma benção da noite, do rio, do lugar. que a vida nos dá pequenas grandes luzes e a gente nem percebe, nem olha. esse vagaluminho me quis. ele quis que eu o visse. ele existiu pra mim e me fez importante.
20.4.13
a luz e a não-luz
deus, não me deixa querer coisas que não me façam bem. não adianta eu pedir sem saber o que pedir, não é mesmo? então, peço que eu saiba pedir, que eu saiba querer. deus, me faz saber querer? me deixa querer ver o mar, ouvir o vento, e aguentar a minha solidão? como quem ouve uma música tão bonita e prossegue sabendo querer. me deixa assim querendo apenas o que humanamente eu posso ser?
deus, não me deixa querer coisas que não me façam bem. não adianta eu pedir sem saber o que pedir, não é mesmo? então, peço que eu saiba pedir, que eu saiba querer. deus, me faz saber querer? me deixa querer ver o mar, ouvir o vento, e aguentar a minha solidão? como quem ouve uma música tão bonita e prossegue sabendo querer. me deixa assim querendo apenas o que humanamente eu posso ser?
17.4.13
na estação
fiquei observando as pessoas correndo pra lá e pra cá na estação. poucas, bem poucas encararam o meu olhar. umas duas ou três. é. as pessoas fogem dos olhares, como fogem dos assuntos mais delicados da vida.
e agora dei pra puxar assunto com gente que não conheço. outro dia reparei uma tatuagem bonita no pé bonito de uma moça bonita. aí eu perguntei pra ela: "dói muito?", ela sorriu um sorriso lento e respondeu "dá pra aguentar". eu então contei que estava me preparando para tatuar um poema e ela riu mais: "quanto mais fina a pele, maior a dor". e fomos conversando e ela perdeu a estação. é. as pessoas gostam de ser vistas.
e uma outra moça me parou pra perguntar do meu cabelo grisalho. "você é uma alma velha?" não, isso ela não me perguntou. ela disse de outro jeito: "você faz luzes?". aí fui eu que sorri: "não, é natural". o cabelo dela também grisalho, então ela me contou que fez quimioterapia, que seus cabelos só agora estavam mais hidratados. é. as pessoas precisam falar das suas dores.
outro dia abracei uma amiga que há tempos eu não via. e passamos horas conversando. até quase ela perder a hora do trem. e nos abraçamos de novo na despedida. abraço bom é o abraço que se dá em mão dupla, fazendo o tempo parar de machucar.
e teve o dia que uma outra amiga muito sensível (daquelas que dizem as coisas com os olhos) me convidou para um vinho argentino. e vimos um filme até quase o vinho acabar. e foi tão rápido e bom e pra sempre. é. as pessoas precisam de calor.
o caminho nosso de todos os dias. o abraço que não pode faltar. a alma que não pode passar fome. não nos esqueçamos jamais: assim na terra como no céu.
e na estação, as pessoas correm, ainda.
fiquei observando as pessoas correndo pra lá e pra cá na estação. poucas, bem poucas encararam o meu olhar. umas duas ou três. é. as pessoas fogem dos olhares, como fogem dos assuntos mais delicados da vida.
e agora dei pra puxar assunto com gente que não conheço. outro dia reparei uma tatuagem bonita no pé bonito de uma moça bonita. aí eu perguntei pra ela: "dói muito?", ela sorriu um sorriso lento e respondeu "dá pra aguentar". eu então contei que estava me preparando para tatuar um poema e ela riu mais: "quanto mais fina a pele, maior a dor". e fomos conversando e ela perdeu a estação. é. as pessoas gostam de ser vistas.
e uma outra moça me parou pra perguntar do meu cabelo grisalho. "você é uma alma velha?" não, isso ela não me perguntou. ela disse de outro jeito: "você faz luzes?". aí fui eu que sorri: "não, é natural". o cabelo dela também grisalho, então ela me contou que fez quimioterapia, que seus cabelos só agora estavam mais hidratados. é. as pessoas precisam falar das suas dores.
outro dia abracei uma amiga que há tempos eu não via. e passamos horas conversando. até quase ela perder a hora do trem. e nos abraçamos de novo na despedida. abraço bom é o abraço que se dá em mão dupla, fazendo o tempo parar de machucar.
e teve o dia que uma outra amiga muito sensível (daquelas que dizem as coisas com os olhos) me convidou para um vinho argentino. e vimos um filme até quase o vinho acabar. e foi tão rápido e bom e pra sempre. é. as pessoas precisam de calor.
o caminho nosso de todos os dias. o abraço que não pode faltar. a alma que não pode passar fome. não nos esqueçamos jamais: assim na terra como no céu.
e na estação, as pessoas correm, ainda.
13.4.13
Chove
"E eis que ninguém está vivendo", me disse ontem uma amiga em mais uma dessas conversas sobre a vida, olhos nos olhos, lá fora a sempre-chuva.
E é verdade. Todos atentos a alguma tela, grudados no celular, de olho no email que não chega. Estamos doentes de pressa e de ansiedade. Uma ansiedade que só aumenta e aumenta e aumenta na medida em que os encontros vão ficando cada vez mais raros. Eu disse encontros: lugares-no-tempo-e-no-espaço de existência e sensibilidade profundas, onde se pode ser-com-o-outro. Mas acontece que deixamos de ser porosos e adentráveis: estamos blindados. E o que precisamos, de vez em sempre, é da não-palavra. É do animal humano fluir silêncio dos olhos.
Encontros são sempre bons para o espírito. Pois o que é da natureza do encontro vem e salva. Quando encontrei com o mar, eu estava destroçada. Quando encontrei com o livro eu estava sozinha num escuro sem-fim. Quando encontrei o vento, eu não sabia que ele me amava. Lá fora chove ainda e a chuva se encontra comigo. E eu existo, só existo, porque existe o encontro - o encontro que brota de um silêncio que significa profundamente.
Por isso sou tão feliz numa pista de dança, no meu encontro com a música. O silêncio, o bastar-se no instante. Alcançar a graça de quando nada mais é preciso.
"E eis que ninguém está vivendo", me disse ontem uma amiga em mais uma dessas conversas sobre a vida, olhos nos olhos, lá fora a sempre-chuva.
E é verdade. Todos atentos a alguma tela, grudados no celular, de olho no email que não chega. Estamos doentes de pressa e de ansiedade. Uma ansiedade que só aumenta e aumenta e aumenta na medida em que os encontros vão ficando cada vez mais raros. Eu disse encontros: lugares-no-tempo-e-no-espaço de existência e sensibilidade profundas, onde se pode ser-com-o-outro. Mas acontece que deixamos de ser porosos e adentráveis: estamos blindados. E o que precisamos, de vez em sempre, é da não-palavra. É do animal humano fluir silêncio dos olhos.
Encontros são sempre bons para o espírito. Pois o que é da natureza do encontro vem e salva. Quando encontrei com o mar, eu estava destroçada. Quando encontrei com o livro eu estava sozinha num escuro sem-fim. Quando encontrei o vento, eu não sabia que ele me amava. Lá fora chove ainda e a chuva se encontra comigo. E eu existo, só existo, porque existe o encontro - o encontro que brota de um silêncio que significa profundamente.
Por isso sou tão feliz numa pista de dança, no meu encontro com a música. O silêncio, o bastar-se no instante. Alcançar a graça de quando nada mais é preciso.
12.4.13
movimento
às vezes tudo corre e pensamos estar fazendo tantas coisas e a vida parece se mexer tanto, mas é que o movimento excessivo nos engana: achamos que, justamente por fazermos "tantas coisas" com as horas, não estamos estagnados. não estamos alheios aos nossos próprios caminhos. estamos salvos. salvos de nós mesmos. de ser.
já fiz de tudo: já acordei muito cedo para trabalhar trabalhar trabalhar e só voltar bem à noite pra casa. já não tive férias. já vivi para dormir, acordar e correr com as horas e só. já me entupi de movimento acelerado. já estive tão fora de mim, que quase me perco de vez e pra sempre. e só não me perdi de vez porque quase se perder é também parte do plano de se encontrar.
no final das contas, o que salva mesmo é alguma coisa selvagem e simples que grita e que ganha a gente num berro de silêncio amoroso. essa coisa que tenta de tudo. e que vem em sonho e em cores. a coisa que é aquilo-que-sabe. e nunca é alguém que nos diz "vem por aqui". nunca o que é para nos ajudar-a-ser diz isso.
cumprir com a própria órbita é o que nos cabe. fazer um movimento próprio, ser e expressar o que se é. sem ferir ou interferir no direito de ser e de viver do outro. eis o que é existir.
às vezes tudo corre e pensamos estar fazendo tantas coisas e a vida parece se mexer tanto, mas é que o movimento excessivo nos engana: achamos que, justamente por fazermos "tantas coisas" com as horas, não estamos estagnados. não estamos alheios aos nossos próprios caminhos. estamos salvos. salvos de nós mesmos. de ser.
já fiz de tudo: já acordei muito cedo para trabalhar trabalhar trabalhar e só voltar bem à noite pra casa. já não tive férias. já vivi para dormir, acordar e correr com as horas e só. já me entupi de movimento acelerado. já estive tão fora de mim, que quase me perco de vez e pra sempre. e só não me perdi de vez porque quase se perder é também parte do plano de se encontrar.
no final das contas, o que salva mesmo é alguma coisa selvagem e simples que grita e que ganha a gente num berro de silêncio amoroso. essa coisa que tenta de tudo. e que vem em sonho e em cores. a coisa que é aquilo-que-sabe. e nunca é alguém que nos diz "vem por aqui". nunca o que é para nos ajudar-a-ser diz isso.
cumprir com a própria órbita é o que nos cabe. fazer um movimento próprio, ser e expressar o que se é. sem ferir ou interferir no direito de ser e de viver do outro. eis o que é existir.
7.4.13
no caminho
parei a bicicleta. a avenida no domingo é tão mais calma, então deu pra ver, deu pra parar. é que bem ali, no meio do asfalto, estava um corpinho com asas: uma borboleta querendo viver. quando a encontrei ela já estava sem forças, ou quase sem. o peso da vida para ela, ali sozinha, era insuportável. que eternidade é quando se tenta erguer-se sozinho do chão. as asas da borboleta: tão intactas mas sem a força do voo.
em questão de segundos, eu estava com a borboleta nas minhas mãos. tive que agir rapidamente, antes que. e o contraste? minhas mãos tão grosseiras tocando aquele corpo inocente de borboleta, tentei ficar leve pra ela. então a coloquei numa folha bem verde, no canteiro da avenida. um lugar mais protegido, pra que ela tivesse tempo. o vento soprando, empurrando para o voo. eu vi, eu vi como o vento tentava ajudá-la. a borboleta laranja e preta começou então a mover as asas. frágil e forte e lentamente. abria e fechava. abria e fechava. ela estava viva e isso me alegrava. eu fiquei ali olhando pra ela. não podia intervir. e o mundo parou, o tempo. fiquei ali, fui até onde eu poderia estar. porque não podia fazê-la voar. não posso dar ao outro o que nem eu mesma sei. e foi assim que a deixei: batendo suas asas bonitas, ao vento, ela percebendo que tinha asas e que estavam intactas. será que ela voou?
pois eu saí sem saber em que momento. mas fiquei pensando assim, torcendo por ela: “borboleta, voa com o vento, voa para sempre”.
parei a bicicleta. a avenida no domingo é tão mais calma, então deu pra ver, deu pra parar. é que bem ali, no meio do asfalto, estava um corpinho com asas: uma borboleta querendo viver. quando a encontrei ela já estava sem forças, ou quase sem. o peso da vida para ela, ali sozinha, era insuportável. que eternidade é quando se tenta erguer-se sozinho do chão. as asas da borboleta: tão intactas mas sem a força do voo.
em questão de segundos, eu estava com a borboleta nas minhas mãos. tive que agir rapidamente, antes que. e o contraste? minhas mãos tão grosseiras tocando aquele corpo inocente de borboleta, tentei ficar leve pra ela. então a coloquei numa folha bem verde, no canteiro da avenida. um lugar mais protegido, pra que ela tivesse tempo. o vento soprando, empurrando para o voo. eu vi, eu vi como o vento tentava ajudá-la. a borboleta laranja e preta começou então a mover as asas. frágil e forte e lentamente. abria e fechava. abria e fechava. ela estava viva e isso me alegrava. eu fiquei ali olhando pra ela. não podia intervir. e o mundo parou, o tempo. fiquei ali, fui até onde eu poderia estar. porque não podia fazê-la voar. não posso dar ao outro o que nem eu mesma sei. e foi assim que a deixei: batendo suas asas bonitas, ao vento, ela percebendo que tinha asas e que estavam intactas. será que ela voou?
pois eu saí sem saber em que momento. mas fiquei pensando assim, torcendo por ela: “borboleta, voa com o vento, voa para sempre”.
2.4.13
a rua sem fim
descalça subi a rua sem fim até me transformar no meu próprio cansaço. e assim fui subindo, queimando as coisas pelo corpo. até os meus pés não aguentarem mais e me fazerem chorar de dor física - meus pés: único corpo capaz de me devolver ao chão. subi até que restasse apenas eu mesma e a minha própria pulsação. eu pedindo a deus. e no final das contas quanto mais se corre mais a coisa nos alcança. por isso decidi pela subida, e quanto mais longa ela fosse tanto melhor, porque pouca coisa vence o cansaço. eu querendo saber estar e ser só, como eu sou mesmo: assim como vim ao mundo. e eu teria tanto pra dizer, mas escolho dizer e fazer isso: apelar ao cansaço, machucar os meus pés descalços.
e amanhã é quarta-feira. nem que eu tenha que subir outra ladeira. e cansar meus pés de novo. eu vou e volto inteira? deus, me ajude.
descalça subi a rua sem fim até me transformar no meu próprio cansaço. e assim fui subindo, queimando as coisas pelo corpo. até os meus pés não aguentarem mais e me fazerem chorar de dor física - meus pés: único corpo capaz de me devolver ao chão. subi até que restasse apenas eu mesma e a minha própria pulsação. eu pedindo a deus. e no final das contas quanto mais se corre mais a coisa nos alcança. por isso decidi pela subida, e quanto mais longa ela fosse tanto melhor, porque pouca coisa vence o cansaço. eu querendo saber estar e ser só, como eu sou mesmo: assim como vim ao mundo. e eu teria tanto pra dizer, mas escolho dizer e fazer isso: apelar ao cansaço, machucar os meus pés descalços.
e amanhã é quarta-feira. nem que eu tenha que subir outra ladeira. e cansar meus pés de novo. eu vou e volto inteira? deus, me ajude.
31.3.13
quando
eu hoje acordei me achando tão absurda. quem nunca se sentiu absurdo? eu, essa coisa pulsante, viva e frágil. e estar sob o sol, pedindo que ele me aqueça sempre. então apenas quando o café esfria eu me levanto, me ergo para o dia. existir em cada coisa é o que a vida me pede. e aguentar o impossível tempo. e a vida que é pouca e a vida que é muita. porque pode caber tão pouco num espaço grande e caber tanto num único verso, num único instante. e é domingo, faz sol. a vida revira e revira dentro de mim. olho tudo como se alguma música movesse o mundo. estou perplexa de um susto infinito.
eu hoje acordei me achando tão absurda. quem nunca se sentiu absurdo? eu, essa coisa pulsante, viva e frágil. e estar sob o sol, pedindo que ele me aqueça sempre. então apenas quando o café esfria eu me levanto, me ergo para o dia. existir em cada coisa é o que a vida me pede. e aguentar o impossível tempo. e a vida que é pouca e a vida que é muita. porque pode caber tão pouco num espaço grande e caber tanto num único verso, num único instante. e é domingo, faz sol. a vida revira e revira dentro de mim. olho tudo como se alguma música movesse o mundo. estou perplexa de um susto infinito.
30.3.13
e num poema curto pode caber uma vida inteira.
25.3.13
do que uma escritora precisa
um gravador e sonhos pra gravar. gatos ao redor. louça pra lavar. planta pra regar. livro de receitas. fogo pra criar, cama pra deitar, amar, sonhar de novo. tempo. movimento e calor. cadernos, folhas soltas e guardanapos. espaços livres para as palavras. café, o que fazer, onde pousar. headphones. estante com livros, cds, gavetas, calça xadrez. filmes que façam tremer. humor pra suportar a vida. compaixão. ternura. humanidade. capacidade de ouvir, de olhar com a pele. capacidade de silêncio: isso não pode faltar. pausas e mais pausas. dizer não. dizer sim. doer, cicatrizar e ainda ser capaz de contar, de aprender. dias escuros, dias claros. chuva. mar. cantar no chuveiro. chorar no chuveiro. estar perto de gente de verdade, que chore lágrima quente, gente de bom coração. gente simples, que saiba abraçar. gente que não interrompe quando vê a palavra estampada no olhar - isso existe? tomara.
um gravador e sonhos pra gravar. gatos ao redor. louça pra lavar. planta pra regar. livro de receitas. fogo pra criar, cama pra deitar, amar, sonhar de novo. tempo. movimento e calor. cadernos, folhas soltas e guardanapos. espaços livres para as palavras. café, o que fazer, onde pousar. headphones. estante com livros, cds, gavetas, calça xadrez. filmes que façam tremer. humor pra suportar a vida. compaixão. ternura. humanidade. capacidade de ouvir, de olhar com a pele. capacidade de silêncio: isso não pode faltar. pausas e mais pausas. dizer não. dizer sim. doer, cicatrizar e ainda ser capaz de contar, de aprender. dias escuros, dias claros. chuva. mar. cantar no chuveiro. chorar no chuveiro. estar perto de gente de verdade, que chore lágrima quente, gente de bom coração. gente simples, que saiba abraçar. gente que não interrompe quando vê a palavra estampada no olhar - isso existe? tomara.
23.3.13
até onde
Fui ver um filme e me deu vontade de saltar da poltrona e dar um grito. Eu quis gritar muito alto. E do meu lado tinha uma japonesa muito elegante e que bufava e se revirava toda na cadeira do cinema, como eu. Como se alguma coisa estivesse queimando. Porque aflição tem limite e chega um ponto que ela explode em gesto. Fazia tempo que um filme não me punha no limite: à beira de gritar.
E a perplexidade era tanta que eu não via degrau, quase tropecei, pálida, sem saber pra que lado. Que será que pensou quem viu o meu rosto depois do filme? Acho que ninguém viu. Saí com tanta pergunta na cabeça. Por exemplo: por que acontecem coisas ruins para pessoas boas? De onde vem essa fúria me percorrendo as mãos? Por que esse filme me atinge?
Não, o filme não é pesado, mas também não é leve. Não é pesado de afundar, nem leve de superfície. O filme é de limite, de até onde aguentamos parados. É disso exatamente que o filme trata. Ele é mágico e cruel, faz isso com quem assiste: coloca você cara a cara com a sua aflição maior, ele mostra onde você mudaria tudo, em que momento. A hora do grito, a hora do basta.
Então vou logo avisando a quem tiver intenção: pra assistir, recomendo alguém do lado pra apertar a mão, pra gritar junto o palavrão nem que seja no silêncio. Aliás, será no silêncio, mas será gritado.
Ah, sim, o nome do filme: “Depois de Lúcia”.
Fui ver um filme e me deu vontade de saltar da poltrona e dar um grito. Eu quis gritar muito alto. E do meu lado tinha uma japonesa muito elegante e que bufava e se revirava toda na cadeira do cinema, como eu. Como se alguma coisa estivesse queimando. Porque aflição tem limite e chega um ponto que ela explode em gesto. Fazia tempo que um filme não me punha no limite: à beira de gritar.
E a perplexidade era tanta que eu não via degrau, quase tropecei, pálida, sem saber pra que lado. Que será que pensou quem viu o meu rosto depois do filme? Acho que ninguém viu. Saí com tanta pergunta na cabeça. Por exemplo: por que acontecem coisas ruins para pessoas boas? De onde vem essa fúria me percorrendo as mãos? Por que esse filme me atinge?
Não, o filme não é pesado, mas também não é leve. Não é pesado de afundar, nem leve de superfície. O filme é de limite, de até onde aguentamos parados. É disso exatamente que o filme trata. Ele é mágico e cruel, faz isso com quem assiste: coloca você cara a cara com a sua aflição maior, ele mostra onde você mudaria tudo, em que momento. A hora do grito, a hora do basta.
Então vou logo avisando a quem tiver intenção: pra assistir, recomendo alguém do lado pra apertar a mão, pra gritar junto o palavrão nem que seja no silêncio. Aliás, será no silêncio, mas será gritado.
Ah, sim, o nome do filme: “Depois de Lúcia”.
20.3.13
era setembro
e dentro do avião eu só pensava neles. a aflição que era esperar aquele remédio fazer efeito e eu querendo dormir logo. mas se estou na janela, eu vou olhando: desafio tudo em mim, e olho lá pra baixo, olho as luzes, acho tudo lindo, esqueço. depois de adulta a gente fica assim, cheia de manias. milho só na espiga, fruta só se for batida, café só se for bem quente, noticiários-chatos só se forem com você, noite só se for com chuva, e voos sem turbulência, pode ser? lembrar de fazer tudo o que está escrito na minha mão: essa é minha mania mais antiga.
é que em tudo há a chance de um nunca-mais, é apavorante e no entanto é o tempo todo: tudo que é agora pode não ser mais. a saudade que faz a gente tremer por dentro. sacode tudo e tanto, que a gente chora. eu pensava nos meus gatos e em todas as coisas simples da minha vida. as coisas simples... o sofá azul no meio da sala. e voando (esse lugar de medo e fascínio) é quando mais se percebe que se quer estar vivo – para alguém ou para alguma coisa.
prefiro quando o avião pousa. ficar sem chão por tantas e tantas horas. isso não é comigo. eu sou do chão, sou da água. não sou do ar. não sei, não sei voar.
e dentro do avião eu só pensava neles. a aflição que era esperar aquele remédio fazer efeito e eu querendo dormir logo. mas se estou na janela, eu vou olhando: desafio tudo em mim, e olho lá pra baixo, olho as luzes, acho tudo lindo, esqueço. depois de adulta a gente fica assim, cheia de manias. milho só na espiga, fruta só se for batida, café só se for bem quente, noticiários-chatos só se forem com você, noite só se for com chuva, e voos sem turbulência, pode ser? lembrar de fazer tudo o que está escrito na minha mão: essa é minha mania mais antiga.
é que em tudo há a chance de um nunca-mais, é apavorante e no entanto é o tempo todo: tudo que é agora pode não ser mais. a saudade que faz a gente tremer por dentro. sacode tudo e tanto, que a gente chora. eu pensava nos meus gatos e em todas as coisas simples da minha vida. as coisas simples... o sofá azul no meio da sala. e voando (esse lugar de medo e fascínio) é quando mais se percebe que se quer estar vivo – para alguém ou para alguma coisa.
prefiro quando o avião pousa. ficar sem chão por tantas e tantas horas. isso não é comigo. eu sou do chão, sou da água. não sou do ar. não sei, não sei voar.
palavra nenhuma
a gata dorme na mochila
e eu sem entender o que me acontece
de o sono dela ser tão bonito
de ela sorrir com o corpo
de saber tanto de gerúndio
de me querer por perto
o gerúndio-instante
como é que você ainda duvida
(como é que você ainda duvida?)
palavra nenhuma adianta pra gente
[só escrevo porque é madrugada
quando o longe vira perto
quanto tudo mais é dizível
quando a tagarelice do mundo dorme
quando sobra só aquele pouco desprotegido
que é algo bem perto do que somos]
ah se eu pudesse fazer a vida conjugar o tempo
na sua boca
você diria assim:
eu não duvido mais.
a gata dorme na mochila
e eu sem entender o que me acontece
de o sono dela ser tão bonito
de ela sorrir com o corpo
de saber tanto de gerúndio
de me querer por perto
o gerúndio-instante
como é que você ainda duvida
(como é que você ainda duvida?)
palavra nenhuma adianta pra gente
[só escrevo porque é madrugada
quando o longe vira perto
quanto tudo mais é dizível
quando a tagarelice do mundo dorme
quando sobra só aquele pouco desprotegido
que é algo bem perto do que somos]
ah se eu pudesse fazer a vida conjugar o tempo
na sua boca
você diria assim:
eu não duvido mais.
18.3.13
dar vida
“que afinal vai dar em nada. nada nada nada... do que eu pensava encontrar.”
nasce dia, morre dia, e o livro tomando chuva comigo. fazendo eu ressuscitar. ele me diz assim: vai. ama e cria. olha: a vida dói, mas ainda assim, persiste. ouvi falar que existe amor brotando na calçada e que o mar é capaz de curar todas as feridas - ele me diz. é preciso ressuscitar.
começa a anoitecer agora. o dia e tudo tão à mostra. o coração entre os dedos, cuidando pra não cair. esperando da noite e do céu alguma resposta. e a dor, ela podia ser pouca. mas não é. ela podia não queimar no peito de quem ama. mas queima. não é justo. não é justo que amar doa tanto. e se doer-com for algum alívio, eu estou aqui.
a dor. ela é uma senhora de mãos não muito delicadas, cansada de tanto esforço. gritando à espera de calor e de abraço. apontando onde. dor-cansaço antes de virar dia.
“que afinal vai dar em nada. nada nada nada... do que eu pensava encontrar.”
nasce dia, morre dia, e o livro tomando chuva comigo. fazendo eu ressuscitar. ele me diz assim: vai. ama e cria. olha: a vida dói, mas ainda assim, persiste. ouvi falar que existe amor brotando na calçada e que o mar é capaz de curar todas as feridas - ele me diz. é preciso ressuscitar.
começa a anoitecer agora. o dia e tudo tão à mostra. o coração entre os dedos, cuidando pra não cair. esperando da noite e do céu alguma resposta. e a dor, ela podia ser pouca. mas não é. ela podia não queimar no peito de quem ama. mas queima. não é justo. não é justo que amar doa tanto. e se doer-com for algum alívio, eu estou aqui.
a dor. ela é uma senhora de mãos não muito delicadas, cansada de tanto esforço. gritando à espera de calor e de abraço. apontando onde. dor-cansaço antes de virar dia.
16.3.13
eu-semente
estou pegando cada vez mais gosto por cuidar das plantas e cheirá-las e regá-las, arrumar toda a terra, cavar pra caber a semente, depois ver a horta dar-se toda em cheiros. e elas, as plantas, fazem tanto por mim. me enchem de vida, me devolvem o ar, com o cheiro único delas. elas-vivas, eu-semente e vice-versa. antes o tempo encurtado e eu correndo na vida. pra quê. pra onde. eu que passei a vida achando que devia correr como todo mundo. e só agora tenho certeza: ser jardineira é pra sempre. e hoje eu sou uma pessoa melhor, porque cuido de plantas. e elas cuidam de mim.
estou pegando cada vez mais gosto por cuidar das plantas e cheirá-las e regá-las, arrumar toda a terra, cavar pra caber a semente, depois ver a horta dar-se toda em cheiros. e elas, as plantas, fazem tanto por mim. me enchem de vida, me devolvem o ar, com o cheiro único delas. elas-vivas, eu-semente e vice-versa. antes o tempo encurtado e eu correndo na vida. pra quê. pra onde. eu que passei a vida achando que devia correr como todo mundo. e só agora tenho certeza: ser jardineira é pra sempre. e hoje eu sou uma pessoa melhor, porque cuido de plantas. e elas cuidam de mim.
15.3.13
acontece
às vezes acontece assim: de duas pessoas se amarem e não saberem o que fazer desse amor. há os que não param para pensar, para olhar, os esquecidos. há os que jogam, pisam, brincam com o amor como se ele não fosse quebrável. há os que o tratam como figurante, como se ele não fosse aquilo que tudo move, que tudo sabe, o espírito das coisas. há os que correm de medo ao se deparar com a primeira dificuldade, como se amar não exigisse algumas mortes e força para suportar a vida que brota delas. há os que ignoram as banalidades vitais, como dar as mãos na calçada ou o beijo antes da madrugada.
mas o fato é: amar não se escolhe, como não se escolhe o próprio nome. simplesmente acontece. amar é dos fenômenos mais bonitos e perversos. porque faz viver, mas tira o ar, te põe no avesso. não sei ainda do que o amor não é capaz. acho que ele faz de um tudo, ele refaz. ele é mutante: machuca e ama. machuca e ama. quem sabe amar que levante a mão: você não deve ser humano. amar nunca se sabe. nunca.
às vezes acontece assim: de duas pessoas se amarem e não saberem o que fazer desse amor. há os que não param para pensar, para olhar, os esquecidos. há os que jogam, pisam, brincam com o amor como se ele não fosse quebrável. há os que o tratam como figurante, como se ele não fosse aquilo que tudo move, que tudo sabe, o espírito das coisas. há os que correm de medo ao se deparar com a primeira dificuldade, como se amar não exigisse algumas mortes e força para suportar a vida que brota delas. há os que ignoram as banalidades vitais, como dar as mãos na calçada ou o beijo antes da madrugada.
mas o fato é: amar não se escolhe, como não se escolhe o próprio nome. simplesmente acontece. amar é dos fenômenos mais bonitos e perversos. porque faz viver, mas tira o ar, te põe no avesso. não sei ainda do que o amor não é capaz. acho que ele faz de um tudo, ele refaz. ele é mutante: machuca e ama. machuca e ama. quem sabe amar que levante a mão: você não deve ser humano. amar nunca se sabe. nunca.
11.3.13
"cadê eu?"

o que nos dá a capacidade de olhar para as próprias feridas e nos ajuda e nos move a reunir forças para cuidar de curá-las, isso sim vale toda nossa dedicação e zelo. pode ter certeza que essa dedicação valerá a pena, valerá a sua vida. tem muita gente por aí pregando “fazer o bem” a qualquer custo. mas acredite: até o que parece muito bom pode ser a pior das armadilhas.
conselhos estúpidos, daqueles de superfície, não faltam neste planeta. o melhor conselho que alguém pode dar na vida é assim: dedique-se, da forma que for, do seu jeito, à expressão da sua alma. procure não machucar ninguém, nem humanos nem animais nem plantas, deixe a natureza em paz, absorva a paz e exale-a de volta. e dentro dessa ética, respeite-se também e acima de tudo. pois como vamos fazer ao outro o que sequer fazemos a nós mesmos?
tenho um certo pavor dessa onda atual de gente que não fala não pensa não vive outra coisa na vida a não ser o prepotente mantra “vamos salvar o mundo”. gente prepotente diz isso, pensa isso. e normalmente essa mesma gente não está muito acostumada a olhar pra dentro. ai que perigoso. fica achando que a merda toda está fora. e eu bem que gostaria de que esse mundo fosse outro: vegano, com as árvores preservadas, ciclovias repletas de uma paisagem delicada, pessoas que ouvem as outras, que olham nos olhos, educadas e verdadeiras, que apreciam os pés descalços em contato com o mar – não perfeitas, apenas mais atentas à vida. por mim, esse discurso de salvar o mundo morreria, e as pessoas começariam a regar mais as plantas para aprender sobre a vida, começariam a cozinhar mais sua própria comida, lavariam a louça, e assistiriam a filmes tocantes, leriam livros inspirados, dormiriam e acordariam se sentindo amadas. e aí, enquanto fizessem tudo isso, os pequenos tesouros da vida, justamente aí elas começariam a se tornar melhores em tudo: no amor, na liberdade, na disciplina e lucidez que a vida exige, aprenderiam sobre o que são, sobre o que sabem fazer, sobre o que podem ser para o mundo. no lugar de “vamos salvar o mundo”, que tal cuidarmos primeiro das nossas almas? salvar o mundo é para os prepotentes. o mundo estará salvo quando os humanos não estiverem mais com a alma tão doente.
o problema não está em fazer algo voltado para uma causa legal e necessária, porque realmente “nosso” planeta está um caco. mas há um grito, um chamamento maior por trás disso tudo. o que eu reparo é que muitas dessas ações estão cercadas de exageros, no sentido de que as pessoas deixam de cuidar de si, deixam de cultivar o pequeno, deixam de lado coisas importantes, e aí a planta seca na varanda. e então elas começam a remar freneticamente, movidas pelo mais lindo dos discursos, até que chega um belo dia e elas constatam (ou não) que conseguiram finalmente o feito de se resumirem a isso aí que defendiam a todo custo. remar compulsivamente como quem foge do susto que é morrer e nascer todo o tempo.
novamente: se você quer fazer algo legal na vida, ser uma pessoa legal, isso não está longe, viu? não está em nenhum lugar fora de você. isso está no quanto você juntou, e ainda pode juntar, ao longo de sua vida, capacidade e força para olhar para o que você é, e atender ao que a sua alma chama. e saber o que você é, ah isso requer trabalho. isso requer ouvir e estar com gente que sabe da vida. e isso nem sempre vem fácil, não tem aula disso na escola. mas está inteiramente à sua disposição se você assim quiser. você consegue ouvir essa voz? a sua voz? consegue identificá-la e distingui-la das demais? se a resposta é sim, você é uma pessoa legal, está se tornando cada vez mais o que nasceu para ser. keep walking. mas se a resposta é não, se você ainda não sabe a diferença entre a sua voz e as vozes que te atormentam, que te sufocam, que te levam pra longe de você, se você acorda e se pergunta “cadê eu?”, então você tem que mudar de trilhos, trocar os sapatos. primeiro de tudo, você tem que escolher sapatos que caibam perfeitamente nos seus pés. e que sejam, de preferência, esses que você mesmo fez à mão.
a vida existe na simplicidade. as coisas gigantes são feitas para as cartilhas escolares. e, se pensarmos, as coisas gigantes mesmo, aquelas de importância e consistência, são formadas por pequenas gotas, são coisas-oceano, coisas-chuva. o que vale é o que tem pulsação enquanto acontece. isso é o que faz com que existamos no tempo. a pulsação. então acontece que àqueles que dependem sempre e que se tornam escravos de fazer coisas absolutamente gigantes, a esses a vida escapa. porque o mais delicado mora no mínimo, mínimo gesto.

o que nos dá a capacidade de olhar para as próprias feridas e nos ajuda e nos move a reunir forças para cuidar de curá-las, isso sim vale toda nossa dedicação e zelo. pode ter certeza que essa dedicação valerá a pena, valerá a sua vida. tem muita gente por aí pregando “fazer o bem” a qualquer custo. mas acredite: até o que parece muito bom pode ser a pior das armadilhas.
conselhos estúpidos, daqueles de superfície, não faltam neste planeta. o melhor conselho que alguém pode dar na vida é assim: dedique-se, da forma que for, do seu jeito, à expressão da sua alma. procure não machucar ninguém, nem humanos nem animais nem plantas, deixe a natureza em paz, absorva a paz e exale-a de volta. e dentro dessa ética, respeite-se também e acima de tudo. pois como vamos fazer ao outro o que sequer fazemos a nós mesmos?
tenho um certo pavor dessa onda atual de gente que não fala não pensa não vive outra coisa na vida a não ser o prepotente mantra “vamos salvar o mundo”. gente prepotente diz isso, pensa isso. e normalmente essa mesma gente não está muito acostumada a olhar pra dentro. ai que perigoso. fica achando que a merda toda está fora. e eu bem que gostaria de que esse mundo fosse outro: vegano, com as árvores preservadas, ciclovias repletas de uma paisagem delicada, pessoas que ouvem as outras, que olham nos olhos, educadas e verdadeiras, que apreciam os pés descalços em contato com o mar – não perfeitas, apenas mais atentas à vida. por mim, esse discurso de salvar o mundo morreria, e as pessoas começariam a regar mais as plantas para aprender sobre a vida, começariam a cozinhar mais sua própria comida, lavariam a louça, e assistiriam a filmes tocantes, leriam livros inspirados, dormiriam e acordariam se sentindo amadas. e aí, enquanto fizessem tudo isso, os pequenos tesouros da vida, justamente aí elas começariam a se tornar melhores em tudo: no amor, na liberdade, na disciplina e lucidez que a vida exige, aprenderiam sobre o que são, sobre o que sabem fazer, sobre o que podem ser para o mundo. no lugar de “vamos salvar o mundo”, que tal cuidarmos primeiro das nossas almas? salvar o mundo é para os prepotentes. o mundo estará salvo quando os humanos não estiverem mais com a alma tão doente.
o problema não está em fazer algo voltado para uma causa legal e necessária, porque realmente “nosso” planeta está um caco. mas há um grito, um chamamento maior por trás disso tudo. o que eu reparo é que muitas dessas ações estão cercadas de exageros, no sentido de que as pessoas deixam de cuidar de si, deixam de cultivar o pequeno, deixam de lado coisas importantes, e aí a planta seca na varanda. e então elas começam a remar freneticamente, movidas pelo mais lindo dos discursos, até que chega um belo dia e elas constatam (ou não) que conseguiram finalmente o feito de se resumirem a isso aí que defendiam a todo custo. remar compulsivamente como quem foge do susto que é morrer e nascer todo o tempo.
novamente: se você quer fazer algo legal na vida, ser uma pessoa legal, isso não está longe, viu? não está em nenhum lugar fora de você. isso está no quanto você juntou, e ainda pode juntar, ao longo de sua vida, capacidade e força para olhar para o que você é, e atender ao que a sua alma chama. e saber o que você é, ah isso requer trabalho. isso requer ouvir e estar com gente que sabe da vida. e isso nem sempre vem fácil, não tem aula disso na escola. mas está inteiramente à sua disposição se você assim quiser. você consegue ouvir essa voz? a sua voz? consegue identificá-la e distingui-la das demais? se a resposta é sim, você é uma pessoa legal, está se tornando cada vez mais o que nasceu para ser. keep walking. mas se a resposta é não, se você ainda não sabe a diferença entre a sua voz e as vozes que te atormentam, que te sufocam, que te levam pra longe de você, se você acorda e se pergunta “cadê eu?”, então você tem que mudar de trilhos, trocar os sapatos. primeiro de tudo, você tem que escolher sapatos que caibam perfeitamente nos seus pés. e que sejam, de preferência, esses que você mesmo fez à mão.
a vida existe na simplicidade. as coisas gigantes são feitas para as cartilhas escolares. e, se pensarmos, as coisas gigantes mesmo, aquelas de importância e consistência, são formadas por pequenas gotas, são coisas-oceano, coisas-chuva. o que vale é o que tem pulsação enquanto acontece. isso é o que faz com que existamos no tempo. a pulsação. então acontece que àqueles que dependem sempre e que se tornam escravos de fazer coisas absolutamente gigantes, a esses a vida escapa. porque o mais delicado mora no mínimo, mínimo gesto.
10.3.13
escuro e calmo
apaga a luz. e deixa eu te achar. de repente ficou tudo escuro e dentro dele aumentando a pulsação do silêncio. deu então um passo à frente, e mais um passo. deixa eu te achar. foi ficando cada vez mais perto. bem perto. procurou-lhe a boca no silêncio escuro e calmo (é assim que se acha um rosto numa escuridão completa). e as bocas ficaram quentes. os corpos tomando vida. nenhuma palavra, apenas os corpos respirando alto e longamente. mas a luz voltou, passou a chuva. e as bocas se separaram. era isso o que eles queriam e que na escuridão foi possível encontrar: a substância viva no lugar da palavra, o silêncio completo que escorre do olhar.
apaga a luz. e deixa eu te achar. de repente ficou tudo escuro e dentro dele aumentando a pulsação do silêncio. deu então um passo à frente, e mais um passo. deixa eu te achar. foi ficando cada vez mais perto. bem perto. procurou-lhe a boca no silêncio escuro e calmo (é assim que se acha um rosto numa escuridão completa). e as bocas ficaram quentes. os corpos tomando vida. nenhuma palavra, apenas os corpos respirando alto e longamente. mas a luz voltou, passou a chuva. e as bocas se separaram. era isso o que eles queriam e que na escuridão foi possível encontrar: a substância viva no lugar da palavra, o silêncio completo que escorre do olhar.
7.3.13
o livro
ele me põe pra dormir, me faz sorrir ainda que o sorriso esteja triste. ele me devolve o ar. me dá susto a cada pausa que sou obrigada a fazer para exclamar: puta merda. me faz chorar, me faz saber coisas que ninguém nunca me ensinou e que apenas no silêncio sagrado podem vir à tona. ele dói comigo e me esquenta. me sacode sem me deixar cair no chão gelado. me faz lembrar onde me deixei. me ajuda a voar, a pousar, a juntar os ossos de novo. acende o meu dia. ele me pega e me abraça. no mar, na madrugada: não me deixa afogar. chove comigo na noite, me faz acordar, me dá esperança que dentro das pessoas haja algo mais.
ele me põe pra dormir, me faz sorrir ainda que o sorriso esteja triste. ele me devolve o ar. me dá susto a cada pausa que sou obrigada a fazer para exclamar: puta merda. me faz chorar, me faz saber coisas que ninguém nunca me ensinou e que apenas no silêncio sagrado podem vir à tona. ele dói comigo e me esquenta. me sacode sem me deixar cair no chão gelado. me faz lembrar onde me deixei. me ajuda a voar, a pousar, a juntar os ossos de novo. acende o meu dia. ele me pega e me abraça. no mar, na madrugada: não me deixa afogar. chove comigo na noite, me faz acordar, me dá esperança que dentro das pessoas haja algo mais.
5.3.13
"The door"
A mulher do cinema olhou pra mim e disse, rasgando meu ingresso:
- É só seguir em frente.
Um sorriso simpático, confiável, de quem sabe o que diz. Suspirei. Então agradeci e segui em frente. E por onde quer que a minha alma me queira por perto eu estarei também.
A mulher do cinema olhou pra mim e disse, rasgando meu ingresso:
- É só seguir em frente.
Um sorriso simpático, confiável, de quem sabe o que diz. Suspirei. Então agradeci e segui em frente. E por onde quer que a minha alma me queira por perto eu estarei também.
1.3.13
os nossos travesseiros sabem
aprendi que ninguém ama sozinho, e que amor tem data de validade. e aí quando vence a data tem que aguar de novo e aguar sempre e sempre, água de chuva nova. porque o amor é assim óbvio e imprevisível, forte e frágil como a planta: se não houver água nutrindo o solo, o amor se ressente e morre de tanto esperar. não morre, propriamente, mas muda de lugar. e o pior é que todo mundo sabe disso e mesmo assim o amor morre. abre o espaço antes ocupado pela espera. planta e água são uma coisa só. o amor exige do corpo e exige da alma. exige reciprocidade e olhares. exige interesse mútuo. o encontro constante nas pausas. exige percepção, atenção, o amor que só se mantém na reciprocidade. é a única forma dele durar: enquanto ele puder ir e voltar, ir e voltar.
aprendi que ninguém ama sozinho, e que amor tem data de validade. e aí quando vence a data tem que aguar de novo e aguar sempre e sempre, água de chuva nova. porque o amor é assim óbvio e imprevisível, forte e frágil como a planta: se não houver água nutrindo o solo, o amor se ressente e morre de tanto esperar. não morre, propriamente, mas muda de lugar. e o pior é que todo mundo sabe disso e mesmo assim o amor morre. abre o espaço antes ocupado pela espera. planta e água são uma coisa só. o amor exige do corpo e exige da alma. exige reciprocidade e olhares. exige interesse mútuo. o encontro constante nas pausas. exige percepção, atenção, o amor que só se mantém na reciprocidade. é a única forma dele durar: enquanto ele puder ir e voltar, ir e voltar.
27.2.13
pupilas dilatadas
nunca o dia foi tão claro quanto hoje. suportar a claridade não é das tarefas mais fáceis. por isso o escuro é tão importante. é o para quê da luz, o por onde de tudo que precisa ser percorrido ainda. e quando é escuro, tem a hora e o porquê: para que nunca a luz seja demais a ponto de machucar. o escuro serve à luz, ele pede e permite sua chegada. assim como o buraco da fechadura pede a chave e a pergunta-luz contém a escura-resposta.
então eu andava na rua, os olhos fazendo de tudo para se acalmar da luz-demais. esqueci os óculos escuros, aí me protegi com as mãos. eu me protegendo da claridade excessiva do dia diante dos meus olhos tão abertos: suportar o que existe, o que é cada coisa. não basta saber, tem que saber suportar. escuro e claro dentro de nós. e a poeira que sobe quando se está disposto ao susto.
não, não quero nada que é demais. não quero o muito, quero o de-verdade e a força para suportar o que precisa ser visto. quero a água que mata a sede, o calor para os meus ossos e músculos se manterem firmes. a vontade e a pulsação. e que eu não passe frio, mesmo nas horas mais loucas e escuras. que pelos cantos haja sempre uma escuridãozinha virando luz e algo tornando-se o que é.
nunca o dia foi tão claro quanto hoje. suportar a claridade não é das tarefas mais fáceis. por isso o escuro é tão importante. é o para quê da luz, o por onde de tudo que precisa ser percorrido ainda. e quando é escuro, tem a hora e o porquê: para que nunca a luz seja demais a ponto de machucar. o escuro serve à luz, ele pede e permite sua chegada. assim como o buraco da fechadura pede a chave e a pergunta-luz contém a escura-resposta.
então eu andava na rua, os olhos fazendo de tudo para se acalmar da luz-demais. esqueci os óculos escuros, aí me protegi com as mãos. eu me protegendo da claridade excessiva do dia diante dos meus olhos tão abertos: suportar o que existe, o que é cada coisa. não basta saber, tem que saber suportar. escuro e claro dentro de nós. e a poeira que sobe quando se está disposto ao susto.
não, não quero nada que é demais. não quero o muito, quero o de-verdade e a força para suportar o que precisa ser visto. quero a água que mata a sede, o calor para os meus ossos e músculos se manterem firmes. a vontade e a pulsação. e que eu não passe frio, mesmo nas horas mais loucas e escuras. que pelos cantos haja sempre uma escuridãozinha virando luz e algo tornando-se o que é.
25.2.13
reencontro
o mar e o que ele me disse. ventando palavras. ventou e ventou e ventou na minha pele. ele me disse. agora eu sei. deus naquele vento. a pedra e o mar. eu sob a quentura do generoso sol. uma borboleta tão vermelha dançando ao meu redor. o lagarto que atravessou a mata. a tartaruga na água toda viva. "lindeza de vida", o mar me dizendo. e eu chorei ali do alto da pedra. olhos vermelhos. chorei porque o vento me ama. e o mar. e esses seres todos inocentes da devastação humana. o mar trouxe meus destroços, cantou para mim. estive ali diante de deus em cada coisa. eu era um nada sendo amada sem motivo. fiquei nos braços do vento. e algum sorriso se espelhando no meu rosto, brotado da pedra. eu abri do escuro. virei o mar.

o mar e o que ele me disse. ventando palavras. ventou e ventou e ventou na minha pele. ele me disse. agora eu sei. deus naquele vento. a pedra e o mar. eu sob a quentura do generoso sol. uma borboleta tão vermelha dançando ao meu redor. o lagarto que atravessou a mata. a tartaruga na água toda viva. "lindeza de vida", o mar me dizendo. e eu chorei ali do alto da pedra. olhos vermelhos. chorei porque o vento me ama. e o mar. e esses seres todos inocentes da devastação humana. o mar trouxe meus destroços, cantou para mim. estive ali diante de deus em cada coisa. eu era um nada sendo amada sem motivo. fiquei nos braços do vento. e algum sorriso se espelhando no meu rosto, brotado da pedra. eu abri do escuro. virei o mar.
22.2.13
mar,
quando eu pisar na areia
e te olhar nos olhos
me diz tudo que eu preciso saber
me diz, mar
que o meu coração é bom
mas ainda estou aprendendo a voar
e a cair
e a levantar
mar, me ensina teu canto.
quando eu pisar na areia
e te olhar nos olhos
me diz tudo que eu preciso saber
me diz, mar
que o meu coração é bom
mas ainda estou aprendendo a voar
e a cair
e a levantar
mar, me ensina teu canto.
11.2.13
nota 6
"o lado bom da vida" está em cartaz aqui em SP. ouvi falar que era bom então corri pro cinema. aí logo me deparei com um lado bem ruim da vida: uma fila imensa na bilheteria, seguido de outro lado bem ruim da vida: ser obrigada a sentar na segunda fileira, pois é feriado e não tinha outro lugar disponível.
- oi - cutuquei a mulher que estava logo à minha frente na fila - você sabe por que tem tanta gente no cinema hoje?
ela olhou pra mim como quem diz "de que planeta você acabou de chegar?" e falou:
- deve ser porque é feriado.
fiz cara de tonta e tratei de ficar quieta que ultimamente tenho que tomar cuidado com a minha cabeça.
então estava eu bem lá na frente, bem debaixo da tela, esperando que o filme fosse me dizer algo importante. o martírio da fila, eu sem café e apertada para ir ao banheiro, sentada na segunda fileira do cinema, pescoço alongado, "ah, mas deve valer a pena", pensei. esperava que aquele filme me dissesse o que é que há depois de uma dor imensa de escura. mas eis que me deparei com um filme de superfície: no answer, no lights. acontece.
"o lado bom da vida" está em cartaz aqui em SP. ouvi falar que era bom então corri pro cinema. aí logo me deparei com um lado bem ruim da vida: uma fila imensa na bilheteria, seguido de outro lado bem ruim da vida: ser obrigada a sentar na segunda fileira, pois é feriado e não tinha outro lugar disponível. - oi - cutuquei a mulher que estava logo à minha frente na fila - você sabe por que tem tanta gente no cinema hoje?
ela olhou pra mim como quem diz "de que planeta você acabou de chegar?" e falou:
- deve ser porque é feriado.
fiz cara de tonta e tratei de ficar quieta que ultimamente tenho que tomar cuidado com a minha cabeça.
então estava eu bem lá na frente, bem debaixo da tela, esperando que o filme fosse me dizer algo importante. o martírio da fila, eu sem café e apertada para ir ao banheiro, sentada na segunda fileira do cinema, pescoço alongado, "ah, mas deve valer a pena", pensei. esperava que aquele filme me dissesse o que é que há depois de uma dor imensa de escura. mas eis que me deparei com um filme de superfície: no answer, no lights. acontece.
domingo bonito de chuva
deus me dá o drama e deus me dá a comédia, que ontem aconteceu das coisas mais engraçadas e pavorosas na vida de quem cuida de gatos.
era meio da tarde e garoava. um domingo bonito de chuva. eu, que não me guardo nunca da chuva, desci a calçada e logo avistei o gatinho de quem eu cuidava do lado de fora da casa, sentado diante do portão."minha nossa senhora", pensei no espanto. e larguei tudo no chão e só conseguia ficar espantada e agradecer e agradecer e agradecer que o gato estava ali bem na minha frente. inteiro e a salvo. a porta da casa estava aberta e o chão cheio de folhas e pétalas voadas. entrei com o gato no colo, fechei a porta e sentei no sofá. meu deus. o susto e o alívio de estar tudo bem.
a campainha tocou e era a vizinha desesperada atrás do gato.
- o gato estava zanzando aqui na rua desde cedo, foi parar na mercearia, ficou todo mundo preocupado!
eu então expliquei que o gato estava comigo, e que haviam esquecido a porta aberta. e sorrimos eu e a vizinha, espantadas ainda. voltei ao sofá da sala. o gato não estava espantado, ele queria me contar que o domingo dele foi todo diferente, divertido, que passeou pela calçada e que viu gente. como as crianças, ele era inocente da vida. fiquei olhando pra ele e ele me sorrindo de volta.
- fala, Bu. me conta tudo.
e então ele deitou no tapete vermelho, afiou suas garrinhas, pulou no sofá e deitou do meu lado. e começou a dar aquelas cambalhotas de gato. ele me dizendo tudo e eu ouvindo. e o domingo seguiu chuvoso e sem avisar.
deus me dá o drama e deus me dá a comédia, que ontem aconteceu das coisas mais engraçadas e pavorosas na vida de quem cuida de gatos.
era meio da tarde e garoava. um domingo bonito de chuva. eu, que não me guardo nunca da chuva, desci a calçada e logo avistei o gatinho de quem eu cuidava do lado de fora da casa, sentado diante do portão."minha nossa senhora", pensei no espanto. e larguei tudo no chão e só conseguia ficar espantada e agradecer e agradecer e agradecer que o gato estava ali bem na minha frente. inteiro e a salvo. a porta da casa estava aberta e o chão cheio de folhas e pétalas voadas. entrei com o gato no colo, fechei a porta e sentei no sofá. meu deus. o susto e o alívio de estar tudo bem.
a campainha tocou e era a vizinha desesperada atrás do gato.
- o gato estava zanzando aqui na rua desde cedo, foi parar na mercearia, ficou todo mundo preocupado!
eu então expliquei que o gato estava comigo, e que haviam esquecido a porta aberta. e sorrimos eu e a vizinha, espantadas ainda. voltei ao sofá da sala. o gato não estava espantado, ele queria me contar que o domingo dele foi todo diferente, divertido, que passeou pela calçada e que viu gente. como as crianças, ele era inocente da vida. fiquei olhando pra ele e ele me sorrindo de volta.
- fala, Bu. me conta tudo.
e então ele deitou no tapete vermelho, afiou suas garrinhas, pulou no sofá e deitou do meu lado. e começou a dar aquelas cambalhotas de gato. ele me dizendo tudo e eu ouvindo. e o domingo seguiu chuvoso e sem avisar.
8.2.13
Evocar aos olhos
Por força das necessidades da vida, ela adquiriu um hábito diário que era olhar-se no espelho e chamar para que sua alma lhe viesse bem à porta dos olhos. Como quem disca um número e espera que alguém atenda. Era seu novo jeito de evocar a si mesma, pedia que quem quer que habitasse aquele corpo que era o dela comparecesse à superfície do olhar. E todas as manhãs fazia isso e mais duas vezes à tarde, e mais outra vez antes de dormir. Todos os dias e noites chamava por si.
Por força das necessidades da vida, ela adquiriu um hábito diário que era olhar-se no espelho e chamar para que sua alma lhe viesse bem à porta dos olhos. Como quem disca um número e espera que alguém atenda. Era seu novo jeito de evocar a si mesma, pedia que quem quer que habitasse aquele corpo que era o dela comparecesse à superfície do olhar. E todas as manhãs fazia isso e mais duas vezes à tarde, e mais outra vez antes de dormir. Todos os dias e noites chamava por si.
7.2.13
O elevador
De repente deu aquele sacolejo, as luzes piscaram e um tranco forte fez o elevador parar. Tirei os olhos do chão.
- Meu Deus, mulher, não aperta nada!
A outra olhou fria, calma, serena, como se visse o pouso de uma maritaca. Não disse nada, apenas levantou a sobrancelha esquerda, esboçando uma discreta impaciência com o pânico que eu mal disfarçava.
- Mulher, faz alguma coisa, que nós estamos confinadas nesta merda e eu vou morrer dos nervos!
- Glória, relaxa. Respira. Inspira. Expira. Tenta respirar que ajuda.
A japonesa não sabia dizer outra coisa.
- Que meus braços estão formigando, Júlia! Por Deus, por tudo, esse elevador vai despencar, estou zonza...
- Respira. Respira. - e dizia isso olhando para o teto do elevador parado e sem luz.
Depois de minutos (e jamais saberei quantos) decidi tentar me controlar. "Ah, essa japonesa me paga", pensei. Descobri então a única coisa que poderia me acalmar de verdade: a lembrança da montanha, aquele lugar onde morava Deus e onde eu estive um dia. Fui pra lá e deixei a japonesa no elevador, "ela que respirasse", pensei, "eu vou é pra minha montanha, e só volto de lá quando esta merda de elevador desemperrar".
E funcionou. Parei de tremer, o coração aquietou. O elevador voltou a percorrer seu caminho vertical. A japonesa-sem-noção saiu sem olhar pra trás. Pálida, igualzinha ao que entrou. E eu demorei uns minutos, mas logo pousei da montanha direto pro chão.
De repente deu aquele sacolejo, as luzes piscaram e um tranco forte fez o elevador parar. Tirei os olhos do chão.
- Meu Deus, mulher, não aperta nada!
A outra olhou fria, calma, serena, como se visse o pouso de uma maritaca. Não disse nada, apenas levantou a sobrancelha esquerda, esboçando uma discreta impaciência com o pânico que eu mal disfarçava.
- Mulher, faz alguma coisa, que nós estamos confinadas nesta merda e eu vou morrer dos nervos!
- Glória, relaxa. Respira. Inspira. Expira. Tenta respirar que ajuda.
A japonesa não sabia dizer outra coisa.
- Que meus braços estão formigando, Júlia! Por Deus, por tudo, esse elevador vai despencar, estou zonza...
- Respira. Respira. - e dizia isso olhando para o teto do elevador parado e sem luz.
Depois de minutos (e jamais saberei quantos) decidi tentar me controlar. "Ah, essa japonesa me paga", pensei. Descobri então a única coisa que poderia me acalmar de verdade: a lembrança da montanha, aquele lugar onde morava Deus e onde eu estive um dia. Fui pra lá e deixei a japonesa no elevador, "ela que respirasse", pensei, "eu vou é pra minha montanha, e só volto de lá quando esta merda de elevador desemperrar".
E funcionou. Parei de tremer, o coração aquietou. O elevador voltou a percorrer seu caminho vertical. A japonesa-sem-noção saiu sem olhar pra trás. Pálida, igualzinha ao que entrou. E eu demorei uns minutos, mas logo pousei da montanha direto pro chão.
6.2.13
compaixão
e eis que nada que vive permanece intacto. nada. basta estar vivo. esse lugar escuro onde eu me encontro, um lugar onde nenhuma mão se estende, onde dói intermitente, onde me obrigo a comer porque não tenho fome. nesse lugar me preparo. nesse lugar aprendo a minha própria humanidade, aprendo pelo escuro da dor um aprendizado valioso: que um dia quando alguém doer assim e ficar mudo, quero estender as minhas mãos. mesmo não podendo dizer nada que lhe arranque a dor do peito. eu lhe darei as minhas mãos. direi "reage" e lhe darei um abraço e lhe mostrarei uma música e lhe darei tudo o que sei dizer. quem já ardeu sabe: o nome disso é compaixão.
e eis que nada que vive permanece intacto. nada. basta estar vivo. esse lugar escuro onde eu me encontro, um lugar onde nenhuma mão se estende, onde dói intermitente, onde me obrigo a comer porque não tenho fome. nesse lugar me preparo. nesse lugar aprendo a minha própria humanidade, aprendo pelo escuro da dor um aprendizado valioso: que um dia quando alguém doer assim e ficar mudo, quero estender as minhas mãos. mesmo não podendo dizer nada que lhe arranque a dor do peito. eu lhe darei as minhas mãos. direi "reage" e lhe darei um abraço e lhe mostrarei uma música e lhe darei tudo o que sei dizer. quem já ardeu sabe: o nome disso é compaixão.
sobre a vida
a dor que dói dói
dói dói dói
até que cansa de doer.
faz como a fome:
vai aumentando
aumentando aumentando
aumentando
até que passa.
a dor que dói dói
dói dói dói
até que cansa de doer.
faz como a fome:
vai aumentando
aumentando aumentando
aumentando
até que passa.
4.2.13
acordei
acordei cedo para o exame de sangue. o jejum foi o que menos me incomodou, porque fome é algo que eu não terei tão cedo na vida. ou terei, se a vida for boa comigo. quem sabe. mas não vou esperar por isso, então conto que a fome um dia virá novamente, conto com a vida. o que espero dela, da vida, é isto: que ela seja justa e apenas isso. eu que tenho sagitário no meio do céu.
acordei mais cedo, e em jejum fui tirar meu sangue. e como foi bom. foi quase como atender ao pedido que fiz à chuva no sábado à noite. foi assim: eu saindo do curso e a chuva virando temporal, chuva forte mesmo, ela não só molhava, machucava a pele. aí eu decidi enfrentar aquilo que me machucava a pele. e pedi em voz baixa e emocionada: “chuva, me leva embora na sua água, me refaz, me torna chuva também”. eu e a chuva e nada mais.
e eis que aquele sangue saindo de mim me trouxe a sensação do lixo saindo de mim. da sujeira do mundo saindo de mim. de tudo que eu não sou indo embora. aí sentei à mesa do café para o desjejum. e ali chorei. abaixei o rosto, e deixei que chovesse. como quem se lava e com isso arranca a pele morta.
a chuva então cumpriu sua promessa: me tornei chuva. morri para nascer outra.
acordei cedo para o exame de sangue. o jejum foi o que menos me incomodou, porque fome é algo que eu não terei tão cedo na vida. ou terei, se a vida for boa comigo. quem sabe. mas não vou esperar por isso, então conto que a fome um dia virá novamente, conto com a vida. o que espero dela, da vida, é isto: que ela seja justa e apenas isso. eu que tenho sagitário no meio do céu.
acordei mais cedo, e em jejum fui tirar meu sangue. e como foi bom. foi quase como atender ao pedido que fiz à chuva no sábado à noite. foi assim: eu saindo do curso e a chuva virando temporal, chuva forte mesmo, ela não só molhava, machucava a pele. aí eu decidi enfrentar aquilo que me machucava a pele. e pedi em voz baixa e emocionada: “chuva, me leva embora na sua água, me refaz, me torna chuva também”. eu e a chuva e nada mais.
e eis que aquele sangue saindo de mim me trouxe a sensação do lixo saindo de mim. da sujeira do mundo saindo de mim. de tudo que eu não sou indo embora. aí sentei à mesa do café para o desjejum. e ali chorei. abaixei o rosto, e deixei que chovesse. como quem se lava e com isso arranca a pele morta.
a chuva então cumpriu sua promessa: me tornei chuva. morri para nascer outra.
O tempo
Olhou para o relógio. Tinha uma tarde inteira pela frente. E uma tarde para alguém triste é uma eternidade, mas ela não: ela não tinha tempo nem para ser triste, então uma tarde era tão pouco tempo, tinha que dar conta da vida. Lavou então a louça que ficou do almoço e com as mãos ainda molhadas da louça escovou os dentes, passou uma água no rosto. Tanta coisa pra fazer. Daria conta do tempo? Voltou para a sala, serviu a comida dos animais, ajeitou as almofadas do sofá azul, atendeu o telefone. Levantou-se, passou um café e, como quem toma fôlego antes de retomar a partida já no segundo tempo, respirou buscando forças das profundezas do seu corpo, e ainda nessa tomada de ar moveu-se bruscamente em direção à sua mesa de trabalho. Chovia e ela queria parar, mas não podia. Era tudo veloz e ela tinha de dar conta da vida. Tinha que ser muitas. Para depois, só no final bem no finalzinho do dia, encontrar-se novamente. Ela, que pensava como Clarice: "uma vida para trabalhar, outra vida para os filhos, outra vida só para amar", isso que era preciso.
Olhou para o relógio. Tinha uma tarde inteira pela frente. E uma tarde para alguém triste é uma eternidade, mas ela não: ela não tinha tempo nem para ser triste, então uma tarde era tão pouco tempo, tinha que dar conta da vida. Lavou então a louça que ficou do almoço e com as mãos ainda molhadas da louça escovou os dentes, passou uma água no rosto. Tanta coisa pra fazer. Daria conta do tempo? Voltou para a sala, serviu a comida dos animais, ajeitou as almofadas do sofá azul, atendeu o telefone. Levantou-se, passou um café e, como quem toma fôlego antes de retomar a partida já no segundo tempo, respirou buscando forças das profundezas do seu corpo, e ainda nessa tomada de ar moveu-se bruscamente em direção à sua mesa de trabalho. Chovia e ela queria parar, mas não podia. Era tudo veloz e ela tinha de dar conta da vida. Tinha que ser muitas. Para depois, só no final bem no finalzinho do dia, encontrar-se novamente. Ela, que pensava como Clarice: "uma vida para trabalhar, outra vida para os filhos, outra vida só para amar", isso que era preciso.
29.1.13
o dilema

chovia. eu andava na calçada com meu guarda-chuva-colorido. equilibrava tempo e peso de forma que a chuva não me fizesse derreter.
foi quando tocou o celular. e o que era calma virou pressa. e o que era pressa virou angústia. eu com sacola, mochila e guarda-chuva. tendo que, em poucos segundos, dar conta de atender o celular.
deixei tocar e continuei caminhando. tocou de novo. aí me inquietei toda e parei bem no meio da calçada, o guarda-chuva-colorido-vivo tombado no meu ombro direito, a chuva vindo mais forte, o celular gritando na mochila.
na calçada, que era estreita, mal cabíamos eu e o guarda-chuva. não era coisa que se fizesse comigo, né, vida? botar um homem ali, querendo passagem, logo naquele instante do dia.
e aconteceu que encalacramos, eu e o homem, que nem ele passava nem eu me movia. ele enganchou no guarda-chuva e ali ficamos tentando nos desvencilhar um do outro.
fiquei brava com a vida:
- o senhor me perdoe, é que estou carregando coisas demais, por isso estamos, eu e o senhor, aqui entalados.
o homem finalmente passou, fingindo não se importar com a minha grosseria. e o celular tocando e tocando forte. que agonia.
larguei tudo: mochila, guarda-chuva, levei tudo ao chão, a chuva que me derretesse então. o pior já tinha passado e eu desentalei daquele homem. atendi o celular, enfim.
- alô.

chovia. eu andava na calçada com meu guarda-chuva-colorido. equilibrava tempo e peso de forma que a chuva não me fizesse derreter.
foi quando tocou o celular. e o que era calma virou pressa. e o que era pressa virou angústia. eu com sacola, mochila e guarda-chuva. tendo que, em poucos segundos, dar conta de atender o celular.
deixei tocar e continuei caminhando. tocou de novo. aí me inquietei toda e parei bem no meio da calçada, o guarda-chuva-colorido-vivo tombado no meu ombro direito, a chuva vindo mais forte, o celular gritando na mochila.
na calçada, que era estreita, mal cabíamos eu e o guarda-chuva. não era coisa que se fizesse comigo, né, vida? botar um homem ali, querendo passagem, logo naquele instante do dia.
e aconteceu que encalacramos, eu e o homem, que nem ele passava nem eu me movia. ele enganchou no guarda-chuva e ali ficamos tentando nos desvencilhar um do outro.
fiquei brava com a vida:
- o senhor me perdoe, é que estou carregando coisas demais, por isso estamos, eu e o senhor, aqui entalados.
o homem finalmente passou, fingindo não se importar com a minha grosseria. e o celular tocando e tocando forte. que agonia.
larguei tudo: mochila, guarda-chuva, levei tudo ao chão, a chuva que me derretesse então. o pior já tinha passado e eu desentalei daquele homem. atendi o celular, enfim.
- alô.
25.1.13
dança amarela
a nossa vida tão pouca, e a vida tão pouca das borboletas. e mesmo assim elas dançam, amarelas, no céu. elas têm tempo. voam baixo e dançam bem diante dos meus olhos. que entrega. elas que têm apenas semanas ou meses de vida arrumam tempo para uma dança no céu. e nós humanos, que perto delas temos a eternidade, o que fazemos com a vida e o que fazemos de nós mesmos no tempo?
as borboletas sabem-se no pedaço finito de existência que experimentam, então não sentem medo. simplesmente voam. elas sabem um segredo: sabem fazer durar o instante na cor exata e quem sabe elas vivam até mais do que nós, se considerarmos a soma de instantes-vivos que elas colecionam.
a nossa vida tão pouca, e a vida tão pouca das borboletas. e mesmo assim elas dançam, amarelas, no céu. elas têm tempo. voam baixo e dançam bem diante dos meus olhos. que entrega. elas que têm apenas semanas ou meses de vida arrumam tempo para uma dança no céu. e nós humanos, que perto delas temos a eternidade, o que fazemos com a vida e o que fazemos de nós mesmos no tempo?
as borboletas sabem-se no pedaço finito de existência que experimentam, então não sentem medo. simplesmente voam. elas sabem um segredo: sabem fazer durar o instante na cor exata e quem sabe elas vivam até mais do que nós, se considerarmos a soma de instantes-vivos que elas colecionam.
parei na calçada, maravilhada. era um êxtase, uma concessão. o que, então, a vida me dizia? já sei, foi isso, ela me perguntando: "para o que temos tempo na vida?"
13.1.13
sobre o que é real
“Real” pelo dicionário Priberam:
1. Que existe de fato
= efetivo, verdadeiro ≠ imaginário, irreal
2. Que tem existência física,
palpável = concreto ≠ abstrato
3. Que é relativo a fatos ou acontecimentos = factual
4. Que contém a verdade = genuíno,
verdadeiro ≠ artificial, falso, ilusório
Então esta minha calça
xadrez é tão real. Mas apenas quanto tudo que eu posso ver e tocar e ouvir. E
os meus gatos. E o gosto desse café que me acorda. E todas as coisas a fazer. A
minha dor muscular, ela também é real. O filme que passa na TV, a textura da
poltrona do cinema onde eu estive. A cara do sujeito que cruzou a esquina ao
mesmo tempo que eu e da qual eu já me esqueci, ela é real. O chão é real. A
parede é real. E tudo mais que eu vejo e que compõe meu campo visual. Quando o
som do meu espirro atinge o outro quarteirão. Para ser real, não precisa ser
vivo ou quente, nem algo que se possa sentir de olhos fechados, basta que seja
palpável, audível, que tenha cheiro. É assim?
De acordo com as quatro
definições acima temos que real é: o que
existe de fato, que tem existência palpável e que contém verdade. Mas essa
definição falha como tantas outras ao permitir a seguinte lacuna: não nos é
dito a quem se basta “existir de fato” para que, então, algo possa ser
considerado “real”: se “em si”, “para si” ou “para quem”.
Eu existo. Sou palpável. Sou
real. Minha bicicleta, ela é tão real também. Mas não por ser uma bicicleta
palpável, e sim porque ela me leva, me acalma, e até em sonhos ela vem, porque ela, a
coisa em si, ao mesmo tempo representa e é. E é isso o que eu chamo de real: quando
um conteúdo vivo encontra correspondência na forma.
Não são reais, portanto,
as chuvas que não vejo? Os amigos nos dias em que não os encontro? As histórias
dos livros tão vivas dentro de mim? Nada disso é real em si, para si, e para
mim, apenas porque não o vejo? Se só é real o que se apresenta para o meu
corpo, o que só tem existência física a curtas distâncias, então o que existe
dentro da palavra-corpo é o quê?
Se o real é atributo das
coisas “que contêm verdade”, meu deus, e “que existem de fato”, então para mim
é real o que vive e reverbera dentro de mim. Não apenas dentro do meu corpo óbvio e
físico, mas da casa toda que abriga o que eu sou.
No “mundo real” a gente lava
louça, faz comida, faz as coisas da vida, corre, dorme, abraça, cutuca, recebe
o troco na padaria. O real como verdade palpável... mas quem disse que a
verdade é palpável? Esse mundo que vemos e experimentamos diretamente com o
corpo, é ele então que nos diz o que existe de fato? Ou ele é apenas um dos caminhos possíveis até o que
existe em cada coisa? Quando o que é se torna palpável ao corpo e pelo
corpo, aí temos um dos maiores milagres da vida.
No final das contas, o
real tem a ver com o perceber o que se é. Simples assim. Mas agora eu já estou
cansada de pensar, vou então pegar minha vassoura, limpar um dos cantos da
casa, fazer isso que é de natureza tão real e palpável quanto uma parede.
11.1.13
Matéria elementar
Cada coisa que eu faço me deixa mais leve das coisas que eu ainda tenho a fazer. O peso do "a fazer", o peso das coisas ocupando espaço dentro da gente e como precisamos de livres espaços!
Hoje acordei angustiada, com a vida me dizendo "be kind to me and to yourself and to everyone". A vida me pedindo humildade, principalmente para tudo aquilo que não compreendo, que não controlo. Ela me pede assim, mesmo vindo fumaça quente de carro no meu rosto:
olha teus passos
importa que sejam teus
e que neles contenha verdade
mesmo que tu não compreendas
ainda
e ainda assim
caminha no tempo
e vê nas pessoas
o desespero que beira suas existências
vê que a vida é esse por um triz
e que é justamente dessa matéria
que são feitos nossos passos
vê nas pessoas a matéria elementar
e que quando uma coisa quebra
é porque tinha que quebrar
para outra caber
vê que eu existo em ti
em mim
no mar
e no céu
na terra
no som
e que percorro a vida
por meio do olhar.
Aí vem o dia que renasce. E começa tudo de novo: a gente se livrando do peso até que chegue a noite.
É infinito. Como a louça na pia.
Cada coisa que eu faço me deixa mais leve das coisas que eu ainda tenho a fazer. O peso do "a fazer", o peso das coisas ocupando espaço dentro da gente e como precisamos de livres espaços!
Hoje acordei angustiada, com a vida me dizendo "be kind to me and to yourself and to everyone". A vida me pedindo humildade, principalmente para tudo aquilo que não compreendo, que não controlo. Ela me pede assim, mesmo vindo fumaça quente de carro no meu rosto:
olha teus passos
importa que sejam teus
e que neles contenha verdade
mesmo que tu não compreendas
ainda
e ainda assim
caminha no tempo
e vê nas pessoas
o desespero que beira suas existências
vê que a vida é esse por um triz
e que é justamente dessa matéria
que são feitos nossos passos
vê nas pessoas a matéria elementar
e que quando uma coisa quebra
é porque tinha que quebrar
para outra caber
vê que eu existo em ti
em mim
no mar
e no céu
na terra
no som
e que percorro a vida
por meio do olhar.
Aí vem o dia que renasce. E começa tudo de novo: a gente se livrando do peso até que chegue a noite.
É infinito. Como a louça na pia.
5.1.13
a água e o eco
30.12.12
Disfarçado de finito
Para que sejamos mais livres, é preciso isto: que estejamos tão nus e desprotegidos e que não estejamos tão nus e desprotegidos. Queremos sempre e tanto a nudez. Queremos ser nus diante do olhar do outro. É aonde tudo nos leva, à nudez. À coisa livre de todas as camadas.
A nudez, essa última instância, o que eu sou, o que você é. A porção finita do instante, um frame de vida. O infinito mora dentro do finito, sabia?
As coisas finitas (o infinito disfarçado) existem para que o tempo não nos assuste, existem apenas para não sermos e vermos tudo de uma só vez. Como aguentaríamos um dia sem tarde, sem noite, um dia inteiro de uma só vez? Mas acontece da gente sentir a vida toda em um segundo, também. Acontece de caber uma coisa toda num só instante.
O mundo é tão inquieto talvez por isso. Fala-se qualquer coisa para fingir-se a si mesmo que não existe uma nudez à espera. E o que nos espera senão o que já existe dentro de nós?
26.12.12
Sandálias de dedo
A mulher se aproximou, olhou para os meus pés e perguntou:
- Onde você comprou esta sandália?
- Ih, essa sandália eu comprei já faz tempo. Acho que nem existe mais a loja - sorri.
- Ela é bonita. A sola é de pneu de caminhão?
- É bem confortável, mesmo. A sola é de borracha reciclada.
- Sandália de dedo deixa os pés feios, repara pra você ver. Assim é que é bonito.
- É melhor pra caminhar, né? - respondi, quase concordando.
A mulher ia começando a me dizer alguma coisa interessante, ainda sobre o assunto dos pés e das sandálias, e eu a queria ouvir. Mas meu ônibus chegou, e eu com meu tempo finito não pude ouvir o que a mulher tinha para me contar. Ela ia me explicar o que, nas sandálias de dedo, tirava a beleza dos pés. Fiquei sem saber.
Desde então passei a observar os pés femininos presos em sandálias de dedo. E, realmente, os pés perdem muita liberdade nessas sandálias. E menos livres, ficam menos bonitos do que são... O que será que a mulher ia me dizer?
A mulher se aproximou, olhou para os meus pés e perguntou:
- Onde você comprou esta sandália?
- Ih, essa sandália eu comprei já faz tempo. Acho que nem existe mais a loja - sorri.
- Ela é bonita. A sola é de pneu de caminhão?
- É bem confortável, mesmo. A sola é de borracha reciclada.
- Sandália de dedo deixa os pés feios, repara pra você ver. Assim é que é bonito.
- É melhor pra caminhar, né? - respondi, quase concordando.
A mulher ia começando a me dizer alguma coisa interessante, ainda sobre o assunto dos pés e das sandálias, e eu a queria ouvir. Mas meu ônibus chegou, e eu com meu tempo finito não pude ouvir o que a mulher tinha para me contar. Ela ia me explicar o que, nas sandálias de dedo, tirava a beleza dos pés. Fiquei sem saber.
Desde então passei a observar os pés femininos presos em sandálias de dedo. E, realmente, os pés perdem muita liberdade nessas sandálias. E menos livres, ficam menos bonitos do que são... O que será que a mulher ia me dizer?
23.12.12
A dor sem motivo
Nada me aconteceu e tudo me aconteceu. Quem será capaz de olhar tão dentro. De adentrar e não se perder.
Chegou com um sorriso sincero, ela que sempre se esforçava em encurtar as distâncias. Era seu instinto se aproximar. Mas ela sentia como se fosse todo o tempo atropelada pelo medo dos outros, e então o que chegava até ela eram meias verdades, meios olhares, meias palavras. Como se as pessoas tivessem desistido de estar perto o suficiente. Como se fosse perigoso permanecer o olhar.
Nada me aconteceu e tudo me aconteceu. Quem será capaz de olhar tão dentro. De adentrar e não se perder.
Chegou com um sorriso sincero, ela que sempre se esforçava em encurtar as distâncias. Era seu instinto se aproximar. Mas ela sentia como se fosse todo o tempo atropelada pelo medo dos outros, e então o que chegava até ela eram meias verdades, meios olhares, meias palavras. Como se as pessoas tivessem desistido de estar perto o suficiente. Como se fosse perigoso permanecer o olhar.
21.12.12
A rosa
Hoje saí de casa e encontrei uma mulher fotografando rosas. A mulher passeava com seu cachorro branco e calmo, a manhã queimando na pele, uma quentura que não avisa. Uma mulher fotografando rosas e o dia sem uma nuvem no céu. Fiquei parada, observando como ela olhava para as rosas. E então me senti grata por existirem pessoas como ela, que param para olhar uma rosa. Aceitar-se na finitude da rosa, aceitar tudo que nos escapa, ver esperança e morte em um só corpo. Quase uma dor.
Hoje saí de casa e encontrei uma mulher fotografando rosas. A mulher passeava com seu cachorro branco e calmo, a manhã queimando na pele, uma quentura que não avisa. Uma mulher fotografando rosas e o dia sem uma nuvem no céu. Fiquei parada, observando como ela olhava para as rosas. E então me senti grata por existirem pessoas como ela, que param para olhar uma rosa. Aceitar-se na finitude da rosa, aceitar tudo que nos escapa, ver esperança e morte em um só corpo. Quase uma dor.
9.12.12
I feel infinite
Queria primeiramente te agradecer. Por me mostrar que existe um mundo além deste mundo. Por me fazer ter certeza.
Esperou as lágrimas secarem antes de se levantar da sala ainda escura do cinema. E caminhando em direção à rua, nua de espírito, começou a se dar conta de que não se tratava de um domingo qualquer. Arrepiou-se. E as lágrimas todas se acomodaram em algum canto de seu corpo.
Entrou na livraria com aquela coisa quente no peito. Será que dor é quente, pensou baixinho dentro da quentura do pensamento. Encontrou além do livro que procurava, outro livro. Mesmo autor. Não sabia ainda o que, naquele livro, a havia escolhido.
Voltou para casa ainda arrepiada de vida. Passou um café e de olhos fechados fez alguma promessa cujo nome não se pronuncia.
Queria primeiramente te agradecer. Por me mostrar que existe um mundo além deste mundo. Por me fazer ter certeza.
Esperou as lágrimas secarem antes de se levantar da sala ainda escura do cinema. E caminhando em direção à rua, nua de espírito, começou a se dar conta de que não se tratava de um domingo qualquer. Arrepiou-se. E as lágrimas todas se acomodaram em algum canto de seu corpo.
Entrou na livraria com aquela coisa quente no peito. Será que dor é quente, pensou baixinho dentro da quentura do pensamento. Encontrou além do livro que procurava, outro livro. Mesmo autor. Não sabia ainda o que, naquele livro, a havia escolhido.
Voltou para casa ainda arrepiada de vida. Passou um café e de olhos fechados fez alguma promessa cujo nome não se pronuncia.
8.12.12
viu que chovia. pensou em tantas coisas antes de tocar o tomate. estava viva e seus olhos bem abertos. mexia-se com o peito inquieto. então se concentrou e decidiu deixar a poesia para depois. lançou-se novamente em sua beleza de solidão humana e começou a cozinhar.
27.11.12
quentura de vento
no desespero a gente inventa até palavra
no desespero a gente inventa até palavra
e mesmo à espera a gente se salva,
no pedaço de noite
na coisa profunda em forma de risada
vontade das frases mais longas
da coisa juntada
do respiro no céu da boca
do susto nos olhos
da calma sem nome
12.11.12
poema humano
não acredito em gente caridosa demais
simpática demais
boa demais
generosa demais
gentil demais
simplesmente porque não é humano ser perfeito.
não acredito em gente caridosa demais
simpática demais
boa demais
generosa demais
gentil demais
simplesmente porque não é humano ser perfeito.
1.11.12
Pague 1, leve 3
Hoje peguei o destino “errado” no metrô, coisa que me acontece de tempos em tempos. Acho que algo em mim quis me levar para o lado contrário. O lugar onde cabe a invenção de uma vida, o oposto da produtividade. Sim, eu sou dessas que sofrem do excesso de produtividade. Não sei se é crônico, ainda não encontrei alguém que me compreendesse o suficiente para me ajudar a descobrir os meus maiores labirintos.
Estou precisando ficar perto de gente que me poupe o corpo e o espírito para que eu possa brilhar um pouco em liberdade.
Porque ficar só sendo consumida pelas obrigações é inviável. Inviável porque elas não acabam, porque sempre haverá algo quebrado precisando de conserto, sempre haverá alguma poeira por cima da mesa. Inviável porque eu não quero nem posso arrumar tudo que está quebrado.
Atualmente qualquer exigência me põe em fúria. Cansada de fazer o que os outros fazem pela metade. De não saber dizer sim pra mim mesma. Estou toda errada. Por tudo que eu não rego e que me pertence.
Pague 1, leve 3. E aí, vai levar?
Hoje peguei o destino “errado” no metrô, coisa que me acontece de tempos em tempos. Acho que algo em mim quis me levar para o lado contrário. O lugar onde cabe a invenção de uma vida, o oposto da produtividade. Sim, eu sou dessas que sofrem do excesso de produtividade. Não sei se é crônico, ainda não encontrei alguém que me compreendesse o suficiente para me ajudar a descobrir os meus maiores labirintos.
Estou precisando ficar perto de gente que me poupe o corpo e o espírito para que eu possa brilhar um pouco em liberdade.
Porque ficar só sendo consumida pelas obrigações é inviável. Inviável porque elas não acabam, porque sempre haverá algo quebrado precisando de conserto, sempre haverá alguma poeira por cima da mesa. Inviável porque eu não quero nem posso arrumar tudo que está quebrado.
Atualmente qualquer exigência me põe em fúria. Cansada de fazer o que os outros fazem pela metade. De não saber dizer sim pra mim mesma. Estou toda errada. Por tudo que eu não rego e que me pertence.
Pague 1, leve 3. E aí, vai levar?
10.10.12
sentir que a paz tem corpo
acabo de perceber que a escrita em mim é algo sempre sujeito a interrupções, sujeita a ser levada, a ser tomada de mim. um direito ao silêncio que apenas a chuva conhece. e a vida me pede um pulso firme, literalmente. firme o suficiente para continuar escrevendo apesar de qualquer coisa. jogo o celular na parede. mas ele não quebra nunca. não posso fazer nada, a não ser assimilar o caos e cuspir poesia.
paro para escrever porque uma frase me tomou de um jeito inesperado. como quando a gente não parece mais vivo por dentro ou como quando estamos à espera, e algo vem e nos resgata.
outro dia me dei conta de que as melhores coisas na vida são as que encontramos sem procurar. descobri isso ao encontrar um pacote aberto de café na geladeira, depois de ter voltado da padaria com 250g de um café caríssimo (na padaria tudo é bem mais caro, com exceção do pão francês) que comprei num ato de desespero, achando que não tinha mais uma nesga de pó de café em casa. mas tinha! e procurando eu não achei. quando não procurei, quando fiquei em paz com o fato de o café ter acabado, quando minha vida não mais dependia de algum café ainda existir na geladeira, aí sim ele se apresentou.
e na escrita é assim, nas viagens é assim, em tudo que compõe o nosso cotidiano é assim: a coisa qualquer que estejamos fazendo nos dá um caminho que vamos percorrendo, e é justamente o caminho, ou seja, o ato de fazer essa tal coisa, que nos permite receber o que nos espera sem a gente saber.
(“Morar é sentir que a paz tem corpo”, frase do arquiteto mineiro Gustavo Penna, é a matéria viva da qual é composto este texto.)
acabo de perceber que a escrita em mim é algo sempre sujeito a interrupções, sujeita a ser levada, a ser tomada de mim. um direito ao silêncio que apenas a chuva conhece. e a vida me pede um pulso firme, literalmente. firme o suficiente para continuar escrevendo apesar de qualquer coisa. jogo o celular na parede. mas ele não quebra nunca. não posso fazer nada, a não ser assimilar o caos e cuspir poesia.
paro para escrever porque uma frase me tomou de um jeito inesperado. como quando a gente não parece mais vivo por dentro ou como quando estamos à espera, e algo vem e nos resgata.
outro dia me dei conta de que as melhores coisas na vida são as que encontramos sem procurar. descobri isso ao encontrar um pacote aberto de café na geladeira, depois de ter voltado da padaria com 250g de um café caríssimo (na padaria tudo é bem mais caro, com exceção do pão francês) que comprei num ato de desespero, achando que não tinha mais uma nesga de pó de café em casa. mas tinha! e procurando eu não achei. quando não procurei, quando fiquei em paz com o fato de o café ter acabado, quando minha vida não mais dependia de algum café ainda existir na geladeira, aí sim ele se apresentou.
e na escrita é assim, nas viagens é assim, em tudo que compõe o nosso cotidiano é assim: a coisa qualquer que estejamos fazendo nos dá um caminho que vamos percorrendo, e é justamente o caminho, ou seja, o ato de fazer essa tal coisa, que nos permite receber o que nos espera sem a gente saber.
(“Morar é sentir que a paz tem corpo”, frase do arquiteto mineiro Gustavo Penna, é a matéria viva da qual é composto este texto.)
3.9.12
alto e baixo no meu peito
aproveito o meu cansaço e deixo que o meu lado mais amoroso me tome de volta. todo esse cansaço é bonito. e me acalmo e me jogo e faço tudo por mim. e me salvo. na possibilidade do próximo passo. dessa chance viva de um novo respiro, de um novo lugar. é justamente esse rio mais sonoro de palavra aguada, que me molha até no cheiro, que vibra baixo e alto no meu peito, que me conta o que eu preciso saber. é desse rio que eu preciso. ele que me leva sem eu pedir.
aproveito o meu cansaço e deixo que o meu lado mais amoroso me tome de volta. todo esse cansaço é bonito. e me acalmo e me jogo e faço tudo por mim. e me salvo. na possibilidade do próximo passo. dessa chance viva de um novo respiro, de um novo lugar. é justamente esse rio mais sonoro de palavra aguada, que me molha até no cheiro, que vibra baixo e alto no meu peito, que me conta o que eu preciso saber. é desse rio que eu preciso. ele que me leva sem eu pedir.
15.8.12
Esta é uma mensagem aos ciclistas hipócritas e também aos que surtam ao ver um ciclista na calçada: queridos, quando eu tenho que escolher entre a calçada e ficar na rua frente a frente com a morte, escolho a calçada. Parem com essa baboseira retórica de "nunca pedale na calçada", pois essa recomendação aparentemente "civilizada" não se aplica à realidade de São Paulo, onde pedalar (na rua) é estar praticamente entre a vida e a morte. Se quiserem criticar quem pedala PACIFICAMENTE na calçada, quando necessário, por questão de sobrevivência e de falta de opções seguras, apontem seus sábios dedos para o prefeito da cidade, sugiram a construção de ciclovias, ou promovam movimentos pela construção de vias seguras para circularmos. Se quiserem sair pelas ruas pintando ciclofaixas, podem me chamar que eu ajudo. Se quiserem pedalar na rua, entre carros em velocidade, também respeito - cada um tem o direito de usar e preservar o seu corpo como bem entende. Agora, dizer que o ciclista tem obrigação de colocar sua vida em risco é leviandade e imprudência. Discurso bom é aquele que promove a vida e o respeito - e que, sobretudo, não fica só nas palavras. Nossa vida tem valor - não é assim que gritamos na Bicicletada?








